
Antes que a chuva chegue: O destino do seu resíduo!
Como fazer o descarte consciente dos resíduos em casa ou na rua, principalmente em tempos chuvosos?
Iana Martins
05/12/2025

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30/01/2026
Um guia prático para transformar resíduos em impacto positivo.
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Pergunte a um prefeito quanto custa a merenda por aluno e ele responde. Pergunte quanto custa o atendimento por paciente na atenção básica e ele responde. Pergunte quanto custa enterrar uma tonelada de lixo na cidade dele e o silêncio na sala dura uns três segundos.
Não é desleixo, mas resíduo sólido virou, na maioria das prefeituras brasileiras, uma despesa que se paga sem se medir. Aparece na planilha como contrato de coleta, contrato de aterro e folha da limpeza urbana. Costuma ser uma das três maiores despesas correntes do município. E é a única desse porte que quase nunca tem painel.
Esse artigo é uma proposta simples: cinco números. Se a sua gestão acompanhar esses cinco, ela sai do escuro e ganha argumento para negociar contrato, para justificar cobrança e para disputar recurso.
Três coisas mudaram nos últimos anos e empurraram resíduo para o painel de gestão.
A primeira é legal. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) exige plano, metas e resultado. O Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020) foi além e passou a exigir sustentabilidade econômico-financeira do serviço de manejo de resíduos, o que na prática significa cobrar de forma adequada e comprovar que a receita cobre o custo.
A segunda é financeira. Acesso a recurso federal, a financiamento e a estruturação de concessão passou a depender de dado organizado. Município sem informação confiável entra na fila em desvantagem.
A terceira é política. Limpeza urbana é uma das áreas com maior percepção direta pelo cidadão. Quem tem número mostra resultado. Quem não tem, discute impressão.
E o retrato nacional ajuda a entender a urgência. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Abrema, com dados de 2024, 40,3% de tudo o que é gerado no país ainda vai para destinação inadequada, e apenas cerca de 8,7% dos resíduos urbanos foram encaminhados para reciclagem de secos. O IBGE mostra que quase um terço dos municípios brasileiros ainda usava lixão em 2023. Doze anos depois do prazo original da lei.
Agora, os cinco números.
O que é: quanto o município gasta, em reais, para cada tonelada de resíduo que termina no aterro ou no destino final. Soma coleta, transporte, transbordo e disposição, dividido pelo tonelado efetivamente destinado.
Por que importa: esse é o número que transforma resíduo em decisão econômica. Enquanto a despesa aparece só como contrato mensal fechado, não existe comparação possível. Quando vira custo por tonelada, a prefeitura consegue comparar o próprio desempenho ano a ano, comparar com municípios de porte parecido e avaliar se vale investir em triagem, em transbordo ou em rota nova.
O que ele revela na prática: quase sempre revela que o município paga para enterrar material que tem valor de mercado. É o argumento mais forte que existe para justificar investimento em coleta seletiva, porque deixa de ser discurso ambiental e vira conta.
Como acompanhar: mensal, com série histórica de pelo menos 12 meses, separando custo de coleta e custo de disposição.
O que é: o percentual do resíduo gerado que deixou de ir para o aterro porque foi efetivamente recuperado, seja como reciclável comercializado, seja como orgânico compostado.
Por que importa: esse é o indicador mais falsificado do setor, quase sempre sem má fé. A maioria dos municípios mede o quanto foi coletado seletivamente, e não o quanto foi realmente recuperado. A diferença é enorme. Material que chega contaminado à triagem volta para o aterro, e o custo aparece duas vezes, uma na coleta e outra na disposição.
O que ele revela na prática: revela a eficiência real da operação e a qualidade da separação na fonte. Se a coleta seletiva cresce mas o desvio não sobe, o problema não é logística, é engajamento do gerador.
Como acompanhar: pesagem na entrada e na saída da unidade de triagem, com registro por cooperativa e por tipo de material.
O que é: quanto da despesa total com manejo de resíduos é coberta pela receita específica, seja taxa, tarifa ou cobrança de grandes geradores. Expresso em percentual.
Por que importa: é literalmente o que a lei passou a exigir. Município que cobre 40% do custo com receita própria está subsidiando 60% com recurso livre, que poderia estar em saúde, educação ou obra. E, sem esse número, é impossível defender publicamente qualquer revisão de cobrança, porque a discussão vira ideológica em vez de contábil.
O que ele revela na prática: revela o tamanho do rombo silencioso. Também revela oportunidades imediatas, sendo a mais comum a ausência de cobrança adequada de grandes geradores, que usam serviço público custeado por todos para descartar volume de operação privada.
Como acompanhar: trimestral, com abertura por fonte de receita.
O que é: quilos de resíduo por habitante por dia, abertos por bairro, região administrativa ou setor de coleta. A média nacional está em torno de 384 quilos por habitante ao ano, cerca de 1,24 kg por dia, segundo a Abrema.
Por que importa: a média da cidade inteira não serve para operar nada. O que serve é o mapa. Ele mostra onde a rota está sobredimensionada, onde falta frequência, onde há descarte irregular concentrado e onde estão os geradores que deveriam ter contrato próprio e não têm.
O que ele revela na prática: revela injustiça na distribuição do serviço. É comum encontrar regiões com coleta diária e baixa geração convivendo com regiões com coleta alternada e alta geração. Também é o indicador que antecipa ponto viciado, porque volume que some da coleta oficial reaparece em terreno baldio.
Como acompanhar: mensal, cruzando pesagem por rota com população estimada da área.
O que é: o volume que passou por cada organização de catadores, com comprovação documental, e a renda média mensal gerada por pessoa envolvida.
Por que importa: a PNRS colocou a inclusão socioprodutiva dos catadores como diretriz, não como gentileza. Mas inclusão sem número não sustenta política pública, não sustenta contrato e não resiste a mudança de gestão. Esse indicador é o que permite dizer, com documento, quantas famílias vivem da cadeia e quanto material elas devolveram à indústria.
O que ele revela na prática: revela se a política de inclusão está funcionando ou apenas existindo. Também é o dado que abre porta para crédito de reciclagem e para acordos de logística reversa com o setor privado, porque a indústria compra comprovação, não boa intenção.
Como acompanhar: mensal, por organização, com nota, pesagem e destinação registrada.
Se a gestão quiser um bônus de alto retorno, acompanhe também quantos grandes geradores estão cadastrados em relação aos que existem de fato na cidade.
Esse é o indicador de receita mais rápido do setor. Comércios, indústrias, órgãos públicos, prestadores de serviços e condomínios não residenciais acima do limite de volume definido na legislação municipal devem contratar a própria destinação. Quando a fiscalização não tem cadastro, esse custo simplesmente migra para o contrato público.
A diferença entre o cadastro atual e o universo real costuma ser grande o suficiente para pagar sozinha o programa de coleta seletiva do município.
Nenhuma prefeitura resolve resíduo com discurso. Resolve com balança, contrato bem calculado e cobrança justa. E nada disso funciona sem os cinco números acima atualizados na tela de quem decide.
Quer ver como esses indicadores ficariam no seu município?
A Hambis monta um diagnóstico inicial com os dados públicos disponíveis da sua cidade e apresenta o painel com os cinco indicadores, sem custo e sem compromisso.
Quais são os principais indicadores de resíduos sólidos para um município? Os cinco mais úteis para decisão de gestão são custo por tonelada aterrada, taxa efetiva de desvio de aterro, cobertura de custeio do serviço, geração per capita por região da cidade e toneladas rastreadas por cooperativa com renda gerada por catador. Um sexto indicador de alto retorno é a proporção de grandes geradores cadastrados em relação aos existentes.
Como calcular o custo por tonelada de resíduo em um município? Some as despesas de coleta, transporte, transbordo e disposição final em um período e divida pelo total de toneladas efetivamente destinadas no mesmo período. O ideal é manter série histórica mensal e separar o custo de coleta do custo de disposição.
O que é taxa de desvio de aterro? É o percentual do resíduo gerado que deixou de ser aterrado por ter sido efetivamente recuperado, como reciclável comercializado ou orgânico compostado. Ela é diferente da quantidade coletada seletivamente, porque parte do material coletado é rejeitado na triagem e acaba no aterro mesmo assim.
O que o Marco Legal do Saneamento exige dos municípios em resíduos? Entre outros pontos, a Lei nº 14.026/2020 estabeleceu a necessidade de sustentabilidade econômico-financeira do serviço de manejo de resíduos sólidos, o que implica instituir cobrança adequada e demonstrar que a receita cobre o custo da prestação.
Por que o município deve cadastrar grandes geradores? Porque grandes geradores devem custear a própria coleta e destinação. Sem cadastro e sem fiscalização, esse volume entra no serviço público e o custo é distribuído entre todos os contribuintes.
Qual é a geração média de resíduo por habitante no Brasil? Cerca de 384 quilos por habitante ao ano, aproximadamente 1,24 kg por dia, conforme o Panorama 2025 da Abrema com dados de 2024.
Dá para melhorar indicadores de resíduos sem trocar o contrato de coleta? Sim. Boa parte do ganho inicial vem de medir a pesagem na origem, auditar o que já é pago e cadastrar grandes geradores, sem alterar o contrato vigente.