Tudo vai pro Lixo?
Um guia prático para transformar resíduos em impacto positivo.
Hambis Hábitos Sustentáveis
01/06/2025
Um guia prático para transformar resíduos em impacto positivo.
Hambis Hábitos Sustentáveis
01/06/2025
Aprenda como identificar plásticos recicláveis nas embalagens e faça escolhas conscientes que reduzem o lixo e aumentam o impacto positivo no meio ambiente.
Iana Martins
12/06/2025
Como Plutarco registrou, imagine que o herói grego Teseu partiu com seu navio de Atenas para Creta, em suas aventuras de matar minotauros. Durante a viagem, o navio sofre danos e é reparado: troca de mastro, novas velas, reparos em vigas e até mesmo no casco. Até a sua volta, o navio de Teseu trocou todas as suas partes.
Agora vem a pergunta: o navio que voltou é o mesmo navio que partiu, mesmo depois de trocar todas as suas partes? E se juntarmos todas as partes que foram jogadas fora e montarmos um novo navio, qual deles seria o navio de Teseu de verdade?
Esta dúvida gira em torno do conceito de identidade, do que achamos que merece a identidade do navio. A vida é um paradoxo de Teseu! Ela não é um resultado, e sim um processo.
Olhe para uma foto antiga sua, de 15 anos atrás. Com exceção de algumas partes do corpo, como o esmalte do dente, todos os seus átomos não são os mesmos da foto. Estamos o tempo todo incorporando novos átomos e perdendo os antigos. "Nós somos um fluxo de moléculas, com formato e autoconsciência".
Nossa identidade vem de nossa consciência, de como nos vemos e como nos entendemos, de como integramos o nosso passado até o presente no mundo e na identidade que criamos. O que nos faz humanos, em grande parte, é a "capacidade que temos de acreditar coletivamente em uma história, em uma ideia". Pegue por exemplo os Power Rangers, todos os atores mudam, mas ainda continuamos nos identificando com as cores dos personagens (eu sempre fui o vermelho).
As experiências que compartilhamos com os outros nos definem e constroem outro navio de Teseu, sempre mudando, sempre o mesmo: a nossa cultura.
Assim como o navio de Teseu, nossa cultura também está em constante transformação. Mas nem toda transformação nos leva a um lugar melhor. A cultura que construímos em torno dos resíduos que geramos é um exemplo disso.
Em Goiânia, o ponto mais alto da cidade não é um monumento histórico ou uma formação natural – é o aterro sanitário. Uma montanha formada por décadas de descarte inconsciente, um monumento involuntário às nossas escolhas coletivas.
Pense nisso por um momento. Nossa marca mais elevada na paisagem urbana é literalmente uma montanha formada pelo que descartamos. Esta é a identidade que queremos construir para nossa cidade? Para nosso planeta? Para nós mesmos?
A cultura que desenvolvemos em relação aos resíduos não é sustentável. Consumimos, descartamos e esquecemos, como se o ciclo terminasse quando o caminhão de lixo passa em frente às nossas casas. Mas a verdade é que nada simplesmente "vai embora" – tudo vai para algum lugar.
Entre o descarte de nossos resíduos e o crescimento daquela montanha no aterro sanitário, existe um elo fundamental que muitas vezes permanece invisível: as cooperativas de reciclagem. Esses grupos de trabalhadores são verdadeiros heróis ambientais, que diariamente transformam o que seria "lixo" em recursos valiosos.
As cooperativas de reciclagem não apenas desviam toneladas de materiais recicláveis dos aterros sanitários, mas também geram renda e dignidade para milhares de famílias. São agentes de transformação social e ambiental que dão uma segunda vida aos materiais e uma nova oportunidade para pessoas.
Em Goiânia, essas cooperativas enfrentam desafios diários: a falta de separação adequada dos resíduos, a contaminação de recicláveis com orgânicos, a invisibilidade de seu trabalho essencial e em especial a pouca quantidade de materiais que tem chegado para as cooperativas da coleta seletiva pública. Cada garrafa PET, cada caixa de papelão, cada lata de alumínio que chega limpa e separada às mãos desses trabalhadores representa não apenas um item a menos no aterro, mas também alimento na mesa de uma família.
Na Hambis, entendemos que a transformação começa nos espaços onde vivemos. Por isso, desenvolvemos um modelo completo para ajudar condomínios a se tornarem agentes de mudança em nossa cultura de resíduos.
Nossa abordagem começa com a educação ambiental. Realizamos workshops, palestras e atividades interativas com moradores de todas as idades, explicando a importância da separação correta e o impacto de pequenas ações diárias. Como no navio de Teseu, cada pequena mudança de hábito contribui para uma transformação maior.
Em seguida, instalamos ecopontos personalizados, projetados especificamente para as necessidades de cada condomínio. Esses espaços não são apenas locais de descarte, mas centros de conscientização que tornam a separação de resíduos intuitiva e acessível para todos.
O diferencial da Hambis está na conexão direta que estabelecemos entre os condomínios e as cooperativas de reciclagem. Organizamos a coleta regular dos materiais recicláveis, garantindo que cheguem às cooperativas em condições ideais para processamento. Esta parceria beneficia ambos os lados: os condomínios reduzem seu impacto ambiental conseguindo desviar até 70% dos resíduos que iria para o aterro sanitário, enquanto as cooperativas recebem materiais de melhor qualidade, aumentando sua renda valorizando ainda mais a economia circular da nossa cidade.
O paradoxo de Teseu nos ensina algo valioso: podemos manter nossa essência enquanto transformamos completamente nossas partes. Da mesma forma, podemos preservar nossa identidade enquanto transformamos nossos hábitos de consumo e descarte.
Podemos mudar esse hábito quando conseguimos criar uma cultura sustentável, e isso temos que construir todos os dias. Mesmo que novas embalagens passem pelo nosso dia a dia, vamos continuar sendo sustentáveis porque estamos fazendo a nossa parte. Seremos as mesmas pessoas, porém com novos hábitos.
Como o navio de Teseu, que manteve sua identidade mesmo com todas as peças substituídas, nossa sociedade pode preservar sua essência enquanto transforma, peça por peça, hábitos nocivos por práticas sustentáveis:
•Consumo consciente: Questionar a necessidade de cada compra e o destino final de cada produto.
•Separação correta: Conhecer as categorias de resíduos e separá-los adequadamente.
•Compostagem: Transformar resíduos orgânicos em adubo, fechando um ciclo natural.
•Economia circular: Apoiar iniciativas que reintegram materiais descartados ao ciclo produtivo, como as cooperativas de reciclagem.
A cultura humana foi passada de geração em geração desde os primeiros humanos, de pessoa para pessoa, compartilhada e modificada como a vida. Nossa cultura sustentável também precisa ser construída e transmitida diariamente.
Na Hambis, acreditamos que essa transformação já está acontecendo, pessoa por pessoa, condomínio por condomínio. Através da educação ambiental, da instalação de ecopontos, da parceria com cooperativas de reciclagem e do desenvolvimento de tecnologias que rastreiam e incentivam práticas sustentáveis, estamos ajudando a reescrever essa história.
Aprender sobre sustentabilidade e mudar hábitos pode ser um processo cansativo, mas expandir a nossa cultura é expandir quem somos, é expandir nossas experiências, uma das poucas identidades permanentes do paradoxo.
Em Goiânia, podemos escolher se queremos que nossa narrativa coletiva continue sendo a de uma cidade cuja marca mais alta é um aterro sanitário, ou se queremos escrever uma história diferente – uma em que transformamos nossa relação com o que consumimos e descartamos.
Qual peça do seu "navio pessoal" você está disposto a substituir hoje? Que pequeno hábito pode ser o início de sua transformação sustentável?
Como Teseu, estamos todos em uma jornada. Nosso desafio não é um Minotauro em um labirinto distante – é o acúmulo de hábitos insustentáveis construídos ao longo de gerações.
Afinal, não é o navio em si que importa, mas as histórias que ele nos permite contar e os horizontes que nos ajuda a alcançar. Que a história que contamos sobre nossa relação com os resíduos seja uma de transformação, consciência e responsabilidade compartilhada.